terça-feira, 24 de julho de 2007

QUERERES

(cazuza)

Onde queres revólver sou coqueiro, onde queres dinheiro sou paixão
Onde queres descanso sou desejo, e onde sou só desejo queres não
E onde não queres nada, nada falta, e onde voas bem alta eu sou o chão
E onde pisas no chão minha alma salta, e ganha liberdade na amplidão

Onde queres família sou maluco, e onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon sou Pernambuco, e onde queres eunuco, garanhão
E onde queres o sim e o não, talvez, onde vês eu não vislumbro razão
Onde queres o lobo eu sou o irmão, e onde queres cowboy eu sou chinês

Onde queres o ato eu sou o espírito, e onde queres ternura eu sou tesão
Onde queres o livre decassílabo, e onde buscas o anjo eu sou mulher
Onde queres prazer sou o que dói, e onde queres tortura, mansidão
Onde queres o lar, revolução, e onde queres bandido eu sou o herói

Eu queria querer-te e amar o amor, construírmos dulcíssima prisão
E encontrar a mais justa adequação, tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés, e vê só que cilada o amor me armou
E te quero e não queres como sou, não te quero e não queres como és

Onde queres comício, flipper vídeo, e onde queres romance, rock'nroll
Onde queres a lua eu sou o sol, onde a pura natura, o inseticídeo
E onde queres mistério eu sou a luz, onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro, e onde queres coqueiro eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal, bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal, e eu querendo querer-te sem ter fim
E querendo te aprender o total do querer que há e do que não há em mim

Ah, bruta flor do querer, ah, bruta flor, bruta flor

O que ainda me incomoda... ainda me afeta ou me afeta e ponto!

(carta)

Não posso demonstrar que sinto meu peito explodir de felicidade quando falo contigo, quando consigo!
Não posso demonstrar que meu dia termina quando, por acaso, vejo você com outro alguém, em outras fotos, em outras histórias.
Não percebe quem não vê.
Não percebe quem não sente.
Não sabe quem não quer saber
ou quem finje, mente.
O propósito inexato, de crueldade em afagos, sufoca, confunde, engana e se revela tão claramente como um luminoso vermelho-fogo gritando: "PERIGO!"
Alguém me avise quando souber para quê serve. Alguém me avise quando souber o que faço com isso.
O inexorável vício de abstinencia agridoce. A bomba pedindo pra ser detonada.
Alguém me explique direito como se desliga. Se desata.
Façam um tutorial, publiquem em Diário Oficial com urgência:
"O importante e o irrelevante, sublime e ordinário mistério do comum indivíduo."
Não, você não entende. Não pode sentir, portanto não pode entender e isto é fato.
"O Amor na prática é sempre ao comtrário."